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30/03/2017

“Por que não podemos vencer a guerra às drogas”

Este texto é uma tradução do original, de autoria de Tim Haslett, que pode ser encontrado aqui. O texto original não continha hyperlinks, notas de rodapé/laterais, nem marcas coloridas – essas adições foram feitas por mim para tentar auxiliar na compreensão do conteúdo. Além disso, o texto original usava imagens estáticas ao invés das animações vistas aqui: estas são cortesia da ferramenta interativa de criação de simulações de sistemas Loopy, de Nicky Case (infelizmente, elas só funcionam direito no desktop!)


É um truísmo do pensamento sistêmico que sistemas sustentáveis geram seu próprio comportamento. Tecnicamente, isso significa que há sistemas de feedback positivo que mantêm o sistema funcionando. Isso é parcialmente verdade no tráfico de drogas.

A primeira dinâmica importante é a forma que a oferta de heroína mantém o estoque de heroína em uma dada comunidade. Esta dinâmica é a clássica oferta e procura. À medida que a oferta de heroína aumenta, o estoque de heroína na mão de traficantes aumenta. Isso por sua vez diminui o preço, o que faz a oferta desacelerar. Mas quando a oferta desacelera, o estoque de heroína diminui e o preço sobe de novo. De forma geral, haverá um equilíbrio nessa dinâmica.

Aumente ou diminua a quantidade de uma variável para rodar! Clique em “Reset” pra começar de novo e “Remix” para abrir o diagrama em outra página, ou criar o seu! Deslize a barra embaixo para diminuir ou aumentar a velocidade da animação.

A outra parte da dinâmica é a apreensão de grandes carregamentos de heroína pelas autoridades. Tais apreensões diminuem a quantidade de heroína disponível no mercado, fazendo o preço subir e aumentando (o incentivo para a) oferta. A maioria de nós não se dá conta de quão bem organizada é a logística dessa indústria. Apreensões de drogas têm pouco efeito além de aumentar o preço a curto-prazo.

Experimente aumentar as apreensões!

Contudo, há uma consequência do aumento do preço, mostrada no próximo loop. O aumento leva a um crescimento em pequenos crimes: assaltos, roubos de carros, pequenos furtos, etc.1N.T.: Pois viciados já existentes, incapazes de continuar pagando o mesmo preço que antes pela droga que consumiam, e incapazes de gerar renda (devido ao próprio vício), se veem obrigados a cometer crimes para angariar dinheiro. Essas ondas de pequenos crimes são frequentemente enfrentadas pelas autoridades com uma série de prisões, mandando vários viciados para a cadeia local. A falta de viciados nas ruas leva a uma pequena queda no uso, e uma sobra de heroína no mercado. O fato de que viciados condenados costumam ter acesso a drogas na prisão não é algo em que as autoridades não gostam de pensar muito.

Há uma dinâmica final nesse loop. Ela se chama marketing nesse diagrama e representa o que os traficantes fazem quando eles têm pouca quantidade de droga parada, sem conseguir vender. Eles simplesmente a distribuem para não-viciados na esperança de que eles criem um hábito. Se essa estratégia tiver sucesso, ela substitui o viciado preso com um novo viciado. E lembre-se, o viciado antigo provavelmente ainda está usando heroína na prisão, então o consumo total de heroína provavelmente subiu por causa disso.

A lógica desse diagrama indica que a guerra às drogas não faz nada além de criar flutuações o preço da heroína. Mas essas flutuações, e o aumento de preço que delas resulta, faz aumentar o número de crimes.

As políticas públicas usadas até agora tem sido punitivas: a apreensão de drogas e a prisão de pessoas envolvidas com o tráfico. Essas políticas parecem ter feito pouco pra resolver o problema do consumo de drogas em nossas comunidades. Há na verdade dois outros pontos de atuação2No original, leverage points, oportunidades de interação/alteração de sistemas voltadas a alterar seu comportamento. Isso pode ir desde mudanças na legislação criminal, na economia, na (as)simetria informacional, em suma: qualquer alteração que gera uma mudança na cadeia de incentivos, de decisão, na disponibilidade de um certo material ou bem, etc., e seja capaz de alterar o funcionamento (e, quem sabe, a estrutura) de um sistema dinâmico. que podem ser usados. O primeiro é reduzir o número de viciados. Há duas formas de fazer isso, como o diagrama abaixo mostra. A primeira e mais convencional é transformar viciados em ex-viciados, normalmente através de programas de reabilitação.3N.T.: No original, methadone programme, programas de reabilitação de viciados em opióides em que o usuário substitui a droga original por uma substância legalizada e controlada (no caso, a metadona) para evitar os efeitos da abstinência, à medida em que busca se tratar e diminuir seu consumo.

A outra abordagem, muito mais difícil, é parar o fluxo de novos viciados. Isso implica em lidar com um enorme conjunto de problemas sociais. É senso-comum que resolver um problema normalmente leva tanto tempo quanto demorou para o problema se desenvolver. Então esse vai ser um processo longo e necessariamente custoso.

O que nos leva ao outro ponto de atuação: o preço da heroína. Se a heroína fosse legalizada, o governo poderia controlar seu preço. Ele ainda poderia coletar impostos da venda de heroína e usá-los para financiar projetos de reabilitação, ou ainda colocar o preço bem abaixo daquele ditado pelo tráfico ilegal hoje.

Estas soluções não são perfeitas mas fornecem uma alternativa melhor que a “guerra às drogas.”


Você consegue criar um sistema que resolva esse problema? Estou tentando, mas ainda não consegui.

Créditos da imagem: Huffington Post.

Notas   [ + ]

1. N.T.: Pois viciados já existentes, incapazes de continuar pagando o mesmo preço que antes pela droga que consumiam, e incapazes de gerar renda (devido ao próprio vício), se veem obrigados a cometer crimes para angariar dinheiro.
2. No original, leverage points, oportunidades de interação/alteração de sistemas voltadas a alterar seu comportamento. Isso pode ir desde mudanças na legislação criminal, na economia, na (as)simetria informacional, em suma: qualquer alteração que gera uma mudança na cadeia de incentivos, de decisão, na disponibilidade de um certo material ou bem, etc., e seja capaz de alterar o funcionamento (e, quem sabe, a estrutura) de um sistema dinâmico.
3. N.T.: No original, methadone programme, programas de reabilitação de viciados em opióides em que o usuário substitui a droga original por uma substância legalizada e controlada (no caso, a metadona) para evitar os efeitos da abstinência, à medida em que busca se tratar e diminuir seu consumo.
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