A convite de Bruno Alheiros, da carioca Arrecife Galeria, curei a exposição Lúgubre Celestial, dueto entre Gabriel Almeida e Letícia Lopes, com pesquisas que dialogam tanto no aspecto visual quanto, sobretudo, no nível semiótico ou conceitual, ambos trazendo uma preocupação com o mundo interno dos pensamentos, sonhos, devaneios, da interpretação e da adivinhação. A exposição abriu em 30 de novembro de 2024. Abaixo, o texto curatorial.
Lúgubre Celestial
No claro-escuro onde nasce o monstruoso e alucinações corticais reinam livres, a vigília cede o palco da consciência a vida fenomênica diversa. Dissipa-se a pretensão de prever fidedigna a realidade externa; de olhos fechados resta ver somente o que há por trás deles. O inconsciente em uma tela pintada de eigengrau: como a pareidolia nas nuvens, projetamos sobre o nada apenas o que já trazemos conosco. O sonho é um espelho.
Lúgubre Celestial promove o encontro natural de dois pintores do inconsciente que, operando além do binômio figura-abstração, trazem obras que exprimem com clareza que o modo de expressão que lhes é mais caro é o simbólico – a forma eivada de sentido pela mente que ali o projetou. Na pintura como no delírio, o que é visto é tudo que há.
Enquanto Letícia Lopes descobre na penumbra do doméstico a indocilidade do silvestre e o veludo que se confunde com a pele, aproximando humano e animal, os símbolos de Gabriel Almeida congregam a um só tempo a iconografia religiosa e a porcelana kitsch, encantando convergências sacro-meméticas. Como acima, assim abaixo.
- o que eu fiz curadoria, texto, expografia
- data 30 de novembro de 2024







