Ocorrida em 31 de maio de 2025 no espaço independente de residências e ateliês FONTE em São Paulo – SP, a coletiva boca a boca contou com seis artistas mulheres cis e pessoas não-binárias – Isabelle Passos, Heloisa Franco, Patricia Baik, Lui Trindade, Luiza Zaroni e Jade Marra – em ode ao desejo de fundir-se ao seu amor e a saudade de amores passados.
Abaixo, o texto curatorial e fotos da exposição.
boca a boca
Dos carvões sobre papel de Isabelle Passos, que opera com barroca maestria a distância entre o negrume e a luz para olhar pele derme mucosa bem de perto; das composições heavy metal de Heloisa Franco, com pinceladas à base de micro-retificas e solvente – em aberto contraste com a delicadeza semi-angelical da seda pintada com traços leves de Patrícia Baik; às cartografias surreais de Jade Marra, cuja acrílica materializa símbolos de presença e ausência, misturando sonho e vigília, físico e sensível; a Lui Trindade, cujos objetos a base de latex pensam a superação de binarismos corporais fundamentais: dentro-fora, vivo-morto, atraente-repulsivo; ao gesto pseudo-naïf dos retratos de Luiza Zaroni, pinturas-desenhos em que ora fala de si, ora de rostos confabulados entre a tinta e o algodão; boca a boca congrega um recorte de produção que fala sobretudo do anseio pela superação de dicotomias – por si, pelo outro, e por ninguém em particular, pelo agora, pelo que já foi, e pelo que ainda pode ser, além dos vários outros anseios que nascem desse amalgamar:
o anseio pelo roçar sutil e casual do seu dedo mindinho se esgueirando por dentro da manga da minha camisa como quem entra no meu corpo delicadamente e me toca no espírito;
do calor residual do seu corpo nos meus lençóis logo ao acordar;
das memórias vívidas do aroma da terra das flores e das comidas e da paisagem na última viagem que chegamos a fazer;
das texturas de cada dobra da sua pele – macias, ásperas, grossas, finas, sempre saborosas;
do riso, das gírias e das microexpressões que absorvi de tanto observá-la e nela enxergar também a mim mesma;
do calor que sinto atrás do seio esquerdo quando escuto falarem de você;
dos meus dedos correndo lentos pelo seu cabelo;
dos sonhos de pretensa eternidade alvejados e disformes pelo irromper de um abismo de intenções, desejos e fantasmas que insiste violentamente em ser intransponível apesar de, ou justamente por causa do grau de cuidado e abnegação mútuos que cultivamos desde o primeiro momento em que nossos sorrisos se encontraram e instintivamente soubemos que jamais poderíamos cogitar a felicidade que supõe a anulação do que a outra é;
do cheiro da sua boca, ópio.
- o que eu fiz curadoria, texto, expografia
- data 31 de maio de 2025





















