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Estado de Engano

Description

Estado de Engano foi a primeira individual de Céu, artista visual, curador e pesquisadore de artes visuais de Porto Alegre (RS), e minha segunda curadoria no espaço independente lapa, Lapa, em São Paulo (SP). A exposição, aberta em 13 de junho de 2025, fez uma retrospectiva de sua produção recente desde 2022, e mostrou a diversidade de suportes e técnicas com que trabalha Céu – papel, tecido, giz, tinta, impressão, metal, etc. – sempre com foco na materialidade sensorial do objeto produzido mais que nas imagens por ventura representadas.

Abaixo, o texto curatorial e fotos da exposição.


Estado de Engano

conversar com Céu buscando manter uma sequência linear lógica ou previsível de pensamentos é buscar o fracasso (esta que vos escreve aprendeu a lição). você logo entende que deverá abrir mão de qualquer pretensão de controle sobre o significado das palavras que enuncia: estas serão por Céu tomadas, abertas e remoídas, suas entranhas expostas e partes fatiadas, e então devolvidas de volta, irreconhecíveis mas ainda inegavelmente presentes, em pedaços, órgão a órgão – agindo elu não como um legista que analisa a causa mortis, mas como um habilidoso açougueiro que lhe apresenta a infinitude de diferentes cortes que você tem à disposição. você pode preparar pratos deliciosos com esses ora insumos, ou pode se ofender porque avisou que é vegetariana e abomina carne. em todo caso, você não terá muita escolha. qualquer palavra está apta ter sua polissemia metafórica, semântica, fonética ou etimológica desnuda, explícita. não existe barreira entre literal ou figurativo. elu é assim. nas suas próprias palavras:

As imagens foram criadas para tentar fixar o tempo ou retornar a um tempo. As palavras, por sua vez, foram criadas para colocar as imagens em linha, para organizá-las, para fixar a experiência no tempo. A questão é que, toda vez que olhamos uma imagem ou lemos uma palavra, ela muda. Estamos voltando não para a experiência em si, mas para o seu vestígio. E aqui também há polissemia, ambiguidade.

observar a produção de Céu tentando classificá-la sob o binário figurativo/abstração é também uma aspiração fútil: não lhe interessa tornar presente (ou representar) qualquer significante, mas antes a exploração do vestígio que surge a partir da ausência: ausência do objeto, ausência de compromisso com a fidelidade da informação original nas transformações (do mundo em filme, do filme em foto, da foto em impressão, da impressão em desenho, do desenho em pintura, que é parte do mundo também), ausência de objetivo definido previamente à fatura. não se trata puramente também de exploração formalista. o que importa é sim o que surge a partir do processo de trabalho, e principalmente o efeito sensorial provocado. como ela diz:

O que estou fazendo? Traço uma sombra, um canto, um resquício de imagem. Trago-as ao mundo com a maneira que sinto na ponta dos dedos, no gosto da minha boca, no gesto da saudade daquilo que perdi. Torno o encontro propício entre memória e matéria.    Isto é amor? É minha vingança. Minha vingança contra o esquecimento. minha vingança contra o cercamento desse mundo. É um coro de meus reflexos; cabe nas mãos, nas palmas.

em uma de minhas primeiras conversas com Céu falávamos sobre sua expressão de gênero – como pessoas transgênero, estamos acostumados à confusão mental que nossos corpos causam em pessoas cis, mas elu consegue causar dúvida mesmo entre nossos pares gender non-conforming, que com frequência não fazem ideia qual pronome utilizar para se referir a ele. é claro, ela diz, não importa, qualquer um vale. o pronome não diz respeito à biologia – e na medida que quem pergunta sobre esse signo deseja somente saber sobre a carne, Céu mantém a todos em um perpétuo estado de engano.

Details
  • o que eu fiz curadoria, texto, expografia
  • data 13 de junho de 2025
Categories: curadoria