Na performance Há Quedas Por Vir, de Erica Storer e Sansa, as artistas utilizam a arte tradicional japonesa de amarração com cordas conhecida como shibari para desenvolver uma alegoria visual das restrições e da dominação inerentes à prática do trabalho. Assisti as artistas como curadora, no desenvolvimento da rotina performática e produzi um texto de acompanhamento.
Já vieram as quedas
As coisas costumavam ser mais simples. Nos dividíamos em não muito mais que dois grupos: alguns de nós ficavam responsáveis por colher os grãos e frutas que a natureza sem resistir nos dava, enquanto a outros competia tomar à força a carne que de nós insistia em fugir. Não éramos muitos, mas éramos contentes. Enfim conquistando o sedentarismo, criamos plantações irrigadas, encurralamos nossas presas, e nos tornamos assim presos à nossa própria criação: visando nos livrar do trabalho, criamos mais trabalho.
Originadas no Japão medieval, as técnicas de amarração utilizadas na prática do que hoje denominamos “shibari” eram utilizadas primariamente como forma de restringir o movimento de prisioneiros, as cordas de juta funcionando como predecessoras das algemas de metal modernas. Não foi até o século XVII que a constrição passou a ser explorada como prática erótica-estética, que com o tempo passou a ser reconhecida como sua principal aplicação. Portanto, embora superficialmente não ortodoxa – pois a princípio não sexualizada – a performance Há Quedas Por Vir traz de volta à tona uma aplicação do shibari muito mais próxima de seu uso original: afinal, se há algo em comum entre prisioneiros e trabalhadores, é a restrição forçada de sua liberdade.
A constrição, entretanto, não vem como consequência infeliz, mas como parte inerente do que é tido como trabalho: ao contrário do que ocorre em um contexto punitivo, na performance de Sansa e Erica Storer, uma trabalhadora restringe a outra – como uma supervisora à sua subordinada, não se trata somente de agir em uníssono para superar obstáculos fortuitos, e sim de exercer sobre o corpo do próximo grau de controle que deixa explícito, sobretudo ao controlado, que o poder não lhe pertence. Não basta produzir, é preciso ser dominado no processo. Apesar disso, embora uma hierarquia seja sugerida, com alguém que dá ordens e outrem que as obedece, uma pessoa que amarra e outra que é amarrada, não há, aqui, uma relação óbvia de dominação: ambas trabalham, ambas se esforçam, ambas esgotam-se física e psicologicamente, mas para fazer cumprir objetivos que escapam completamente de seus desejos ou necessidades imediatas. Assim como na maioria dos contextos de trabalho contemporâneos, aqueles a quem servem tais objetivos não entram em cena. Adicionamos muitos passos entre nós e os grãos que nos alimentam, já há décadas trocados na forma de futuros e materializados em papeis a serem geridos, catalogados, vendidos e carimbados.
As Quedas do título do trabalho, por sua vez, aludem a um segundo elemento: além de constrita, a trabalhadora é suspensa. Invertida tal qual a carta de tarot, e com expressão igualmente (e forçosamente) plena, ela lembra-nos que o risco da queda, e das consequências potencialmente fatais que dela seguem, não é suportado pelos mesmos que da suspensão extraem ganhos: conforme nos ensinam repetidas vezes as várias crises – econômicas, climáticas, políticas – por que passamos nas décadas recentes, o que é deixado à sorte da gravidade não é o lucro do capitalista, sempre devidamente protegido, mas sim a vida do trabalhador: sua saúde, seus direitos, seu bem-estar, seu próprio futuro. As quedas já vieram.
- o que eu fiz assistência curatorial, texto
- data 2024




